Pesquisa revela que funcionários desenvolvem aplicativos, automações e soluções com inteligência artificial sem participação formal das equipes de tecnologia, levantando preocupações sobre segurança, governança e valorização dos profissionais especializados.
A transformação digital está modificando a maneira como as empresas brasileiras desenvolvem e utilizam soluções tecnológicas. Ferramentas de inteligência artificial, plataformas de automação e recursos de programação simplificada permitem que trabalhadores de diferentes áreas criem aplicativos, painéis e sistemas sem depender diretamente dos departamentos de Tecnologia da Informação (TI).
Entretanto, essa facilidade também apresenta novos desafios para a segurança dos dados, a gestão dos sistemas corporativos e a atuação dos profissionais especializados.
Segundo o estudo Panorama Vibe Coding Brasil, realizado pela Skyone em parceria com o Grupo TNS, metade dos profissionais de empresas brasileiras já desenvolveu algum tipo de solução tecnológica fora dos projetos formais de TI. O levantamento ouviu 1.971 profissionais e identificou que 43% criaram soluções desse tipo nos seis meses anteriores à pesquisa.
Os resultados mostram que a tecnologia deixou de ser desenvolvida exclusivamente por equipes especializadas, mas também reforçam a necessidade de estabelecer critérios para sua utilização no ambiente corporativo.
Inteligência artificial facilita a criação de soluções tecnológicas
Uma das principais mudanças está relacionada ao crescimento do chamado vibe coding, expressão utilizada para descrever a criação de programas e aplicações com auxílio de ferramentas de inteligência artificial.
Nesse modelo, o usuário descreve o que deseja desenvolver em linguagem natural, enquanto sistemas de IA auxiliam na geração de códigos, interfaces e funcionalidades.
Essa possibilidade permite que profissionais de setores administrativos, financeiros, comerciais e operacionais desenvolvam ferramentas para automatizar tarefas e melhorar processos internos.
Entre os exemplos estão planilhas automatizadas, aplicativos de controle, painéis de indicadores, assistentes virtuais e integrações entre plataformas.
Embora essas ferramentas possam aumentar a produtividade, sua utilização sem acompanhamento técnico pode gerar riscos importantes para as organizações.
Desenvolvimento sem supervisão pode comprometer a segurança
A criação de sistemas fora dos processos oficiais de tecnologia está associada ao conceito de Shadow IT, expressão utilizada para identificar recursos tecnológicos adotados sem conhecimento ou aprovação das áreas responsáveis.
Com o avanço da inteligência artificial, esse fenômeno ganha novas características, pois funcionários conseguem desenvolver soluções cada vez mais complexas utilizando ferramentas acessíveis.
O problema não está necessariamente na iniciativa dos trabalhadores, mas na ausência de políticas claras para o desenvolvimento, a utilização e a manutenção dessas aplicações.
Sistemas criados sem avaliação técnica podem apresentar vulnerabilidades, expor informações confidenciais, comprometer a integridade dos dados e dificultar o cumprimento das normas de proteção de informações.
Outro risco está relacionado à continuidade operacional. Uma ferramenta desenvolvida individualmente pode se tornar essencial para determinado departamento sem que a empresa possua documentação, suporte ou condições adequadas de manutenção.
Profissionais de TI continuam fundamentais para as empresas
Apesar da facilidade proporcionada pelas novas tecnologias, o conhecimento especializado dos profissionais de TI permanece indispensável.
A criação de uma aplicação funcional não significa, necessariamente, que ela esteja preparada para operar com segurança, estabilidade e capacidade de crescimento.
Profissionais especializados são responsáveis por avaliar a arquitetura dos sistemas, estabelecer padrões de segurança, realizar integrações, proteger informações e garantir a continuidade dos serviços tecnológicos.
Além disso, a atuação das equipes de tecnologia é essencial para identificar riscos que nem sempre são percebidos por usuários sem formação técnica.
Nesse cenário, a inteligência artificial deve ser compreendida como uma ferramenta de apoio à inovação, e não como substituta automática do trabalho especializado.
A colaboração entre diferentes departamentos pode gerar resultados positivos, desde que acompanhada de planejamento, responsabilidade e critérios técnicos.
Empresas precisam estabelecer regras para utilização da IA
Os resultados da pesquisa indicam a necessidade de uma mudança na maneira como as organizações administram a inovação tecnológica.
Em vez de simplesmente impedir que funcionários desenvolvam soluções, as empresas podem criar ambientes controlados para experimentação, com regras de segurança e acompanhamento das equipes responsáveis.
Entre as medidas recomendadas estão a identificação das ferramentas utilizadas internamente, a definição de limites para o tratamento de dados, a capacitação dos trabalhadores e a criação de ambientes seguros para testes.
Também é importante estabelecer procedimentos para avaliar quando uma solução experimental passa a integrar oficialmente os sistemas corporativos.
A Skyone propõe uma estrutura de governança em seis etapas, incluindo identificação das soluções existentes, definição de requisitos de segurança, capacitação, testes controlados e integração entre as áreas de negócios e tecnologia.
Valorização profissional deve acompanhar a transformação digital
O crescimento das ferramentas de inteligência artificial também amplia o debate sobre a valorização dos trabalhadores de Tecnologia da Informação e Comunicação.
À medida que as empresas incorporam novas soluções, torna-se necessário investir na qualificação contínua dos profissionais, oferecendo condições para que acompanhem as mudanças tecnológicas.
A adoção de sistemas automatizados não elimina a necessidade de conhecimento técnico, responsabilidade profissional e supervisão especializada.
Pelo contrário, a complexidade dos ambientes digitais exige trabalhadores preparados para lidar com segurança da informação, governança de dados, infraestrutura, desenvolvimento de software e integração de sistemas.
Nesse contexto, a discussão também envolve condições adequadas de trabalho, reconhecimento das responsabilidades técnicas e oportunidades de desenvolvimento profissional.
O futuro da tecnologia depende da colaboração e da qualificação
A pesquisa evidencia uma transformação importante: o desenvolvimento de soluções tecnológicas está se tornando uma atividade mais acessível dentro das organizações.
Essa democratização pode favorecer a inovação e contribuir para a melhoria dos processos corporativos. Entretanto, seus benefícios dependem de planejamento, segurança e integração com os profissionais responsáveis pela infraestrutura tecnológica.
Para o setor de Tecnologia da Informação e Comunicação, o desafio será equilibrar a autonomia proporcionada pelas novas ferramentas com a necessidade de manter padrões técnicos e proteger as informações das empresas.
A inovação tecnológica deve caminhar ao lado da valorização profissional, da qualificação contínua e do reconhecimento da importância estratégica dos trabalhadores de TI.
O SINTINORP acompanha as transformações do setor e destaca a importância de que o avanço tecnológico esteja associado ao desenvolvimento profissional e à valorização dos trabalhadores.
Fonte: IT Forum. Dados complementares do levantamento publicados pelo Sindpd.




